segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O escravo das lentes narcísicas

Certos valores de vida, ainda que em culturas diferentes , ou mesmo antagônicas, permanecem sendo os valores essenciais ao convívio social e a base para a manutenção de sociedades sólidas e prósperas. São eles: a família, os amigos e o trabalho. A religião seria o quarto valor social, contudo, variável de cultura para cultura, é mais proveitoso ao assunto em questão o deixar a parte, uma vez que não influenciará neste caso, especificamente.

As Redes Sociais surgiram aproximadamente cinco anos após a criação da internet. Seu objetivo era aproximar pessoas do mesmo grupo social, trazendo-os a debates e conversas mesmo que não estivessem juntos fisicamente. Por um tempo, esse papel foi o único exercido pelas Redes, até que aos poucos tornou-se cada vez mais secundário. 
O que deveria ser um espaço para compartilhar ideias comuns, hoje travestiu-se em um espaço onde a imposição de padrões plenamente superficiais e de improvável alcance norteia a cabeça dos que buscam ser reconhecidos pelos outros, a fim de, obter certa relevância entre aqueles que possuem ideias e gostos semelhantes.

Certamente, você, se não o faz, já presenciou uma pessoa que ao chegar a um ponto turístico, tira uma enorme quantidade de fotografias do próprio rosto, uma selfie, deixando em segundo plano o ponto turístico, ou a paisagem que deveria ser admirada e contemplada. Isso acontece, porque na verdade, a pessoa em questão não está preocupada em contemplar aquela ou essa beleza, mas que alguém, de preferência, o maior número de pessoas possíveis, vejam que ela esteve ali. Isso é importante!
O homem, como um ser social, tem a necessidade "orgânica" de ser percebido pelos outros. As Redes Sociais, trouxeram a universalização da percepção alheia para a velocidade dos clicks. Se no passado, pessoas eram conhecidas mundialmente, após anos de trabalho relevante ou após contribuições (científicas, políticas, sociais, etc) claramente úteis para o vasto mundo, hoje, basta uma foto controversa, uma opinião polêmica ou uma notícia duvidosa para que alguém possa viralizar e atingir o ponto da fama em poucos instantes.
De fato, isso não nos assusta. Estamos familiarizados com isso.
O problema é que as pessoas desejam ser reconhecidas por qualquer coisa.
A cada dia o conteúdo que gera reconhecimento social sob a perspectiva das Redes é mais superficial e tem menos a nos agregar como seres humanos.
O mundo está repleto de peritos sobre todos os assuntos que se tornam cada vez mais agressivos cada vez que alguém contraria suas opiniões sobre qualquer tema, mesmo que não haja profunda propriedade intelectual sobre o que se contraria. Ou seja, nos tornamos mais egocêntricos, e com isso, menos propícios à evolução.

"A maneira mais eficaz de corromper um jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente."

Friedrich Nietzsche

 Um fato incontestável sobre a humanidade é que todos os homens buscam a felicidade. Sem nenhuma exceção. Blaise Pascal, um matemático nascido no século XVII dizia que:

"Todos os homens buscam a felicidade. E não há exceção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo. O que leva um homem a lançar-se à guerra e outros a evitá-la é o mesmo desejo, embora revestido de visões diferentes. O desejo só dá o último passo com este fim. É isto que motiva as ações de todos os homens, mesmo dos que tiram a própria vida."

Não se engane, tanto a criação como a utilização das Redes Sociais tiveram e tem o mesmo intuito.
Mas será que estamos mais felizes?

Definitivamente, não posso responder isso por você.
Mas em determinado ponto comecei a questionar o seguinte: 
O que me traz mais paz? Contemplar o por do sol ou tirar inúmeras fotos para mostrar para alguém que não se importa que eu estava "vendo" o por do sol?

O que deixa mais produtivo? Trabalhar para terminar essa tarefa ou mostrar nas redes que eu estava "fazendo" tal tarefa?

O que ajuda a melhorar meu relacionamento? Ter um momento de conversa com minha esposa ou caçar um frase romântica para colocar debaixo de uma foto dos nossos rostos na Rede, enquanto o tempo passa e o momento de estarmos juntos acaba?

Enfim, os questionamentos poderiam durar páginas e horas de reflexão. Faça os seus. Mas lembre-se, para isso, é necessário sair da zona de conforto. Não é necessário tratar a Rede Social como um vilão, mas é necessário admitir que ela pode estar sedo tóxica e desviada de função. Não são poucos os estudos científicos que atestam os inúmeros prejuízos e danos mentais e psicológicos frutos do mau uso das Redes. São viciantes e causam os mesmo problemas que todos os vícios. Mas para libertar-se desse vício, como todos os outros, o primeiro passo é aceitação de que há um problema.
Embora de igual importância, esse é um tema para outra postagem. Por hora, desejo sinceramente que você reflita sobre o que a utilização das Redes tem lhe trazido de proveitoso.
 

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